Pesquisa identificou quase 30 espécies de aves e mamíferos em área periurbana de Teixeira de Freitas e contribui para o conhecimento e a conservação da biodiversidade local
Quem passa pelas áreas de mata próximas ao Campus do IF Baiano de Teixeira de Freitas dificilmente imagina a diversidade de animais que vivem ali. Nesse fragmento de Mata Atlântica, pesquisadores registraram a presença de quase 30 espécies de aves e mamíferos, entre elas lontras, veados-mateiros, tamanduás-mirins, tatus e cachorros-do-mato.
Os registros foram realizados por meio de armadilhas fotográficas instaladas em uma área de aproximadamente 30 hectares pertencente ao Corredor Central da Mata Atlântica, um dos mais importantes corredores ecológicos do bioma. O projeto, que recebeu o nome de IFAUNA, foi desenvolvido ao longo de dois anos e envolveu estudantes do ensino médio e superior em atividades de iniciação científica.
Segundo a professora de Biologia Rosane Silva dos Santos, a área pesquisada é formada por dois fragmentos com diferentes níveis de conservação. Um deles é mais antropizado e de fácil acesso para a população, enquanto o outro apresenta vegetação mais fechada e preservada. Apesar da proximidade com a cidade, a mata mantém características importantes para a fauna silvestre. “A área fica muito próxima da região urbana, sendo possível acessá-la a pé. Dizemos que é uma área periurbana, transição entre zona rural e zona urbana”, explica.
O interesse pela pesquisa surgiu pouco depois da chegada da professora ao campus, que na época era Técnica de Laboratório. Ela conta que foi procurada pelo professor da área florestal Mardel Miranda Lopes, que já utilizava a área para aulas de campo com estudantes e havia realizado registros preliminares de animais por meio de câmeras instaladas na mata. A partir dessa experiência, surgiu a proposta de investigar cientificamente a fauna local.
Para monitorar os animais, a equipe instalou câmeras em diferentes pontos dos dois fragmentos. A escolha dos locais levou em consideração fatores como a proximidade de fontes de água e a necessidade de evitar áreas onde os equipamentos pudessem ser encontrados por terceiros. “Não utilizamos qualquer material para atrair os animais. Queríamos registrá-los em seu comportamento habitual e com o mínimo de interferência possível”, afirma Rosane.
Entre as espécies identificadas estão a garça-branca-grande, o sabiá-laranjeira, a saracura-três-potes, o tapiti, o veado-mateiro, o cachorro-do-mato, a lontra, o tatu-verdadeiro e o tamanduá-mirim. A bolsista do projeto, Emanuelle Nascimento, estudante de Engenharia Agronômica, não imaginava que a equipe encontraria uma diversidade tão grande de espécies em uma área relativamente pequena e próxima à cidade. “Muitas vezes temos a impressão de que os animais só estão presentes em grandes reservas, mas os registros mostraram que esses fragmentos também funcionam como refúgio e área de circulação para diversas espécies”, afirma a aluna.



Além da diversidade registrada, a presença de alguns animais forneceu pistas importantes sobre as condições ambientais da área. O registro que mais chamou a atenção da professora e pesquisadora Rosane foi o da lontra. De acordo com Rosane, por se tratar de um animal semi-aquático e extremamente arisco, obter imagens da espécie exige posicionar as câmeras em locais muito específicos. A pesquisadora destaca que as lontras são reconhecidas como excelentes indicadores da qualidade ambiental e costumam estar presentes em ecossistemas saudáveis.
Já a presença dos veados-mateiros revela que a área oferece alimento e refúgio adequados e pode sugerir que a área não é um fragmento isolado, mas que possui corredores ecológicos permitindo o deslocamento de fauna. “Ter esses animais em uma área muito próxima da cidade é inesperado, mas também preocupante, devido ao fácil acesso de caçadores e às estradas por perto, que oferecem risco de atropelamentos”, alerta. Rosane explica que a fragmentação das florestas pelo desmatamento reduz a área disponível para sobrevivência dos animais e dificulta o acesso a recursos como alimento e parceiros para reprodução. “Na ecologia, há algo que chamamos de efeito de borda, quanto menor o fragmento mais as áreas antropizadas afetam o interior desse fragmento, reduzindo sua capacidade de resiliência frente às mudanças”, explica Rosane. Além disso, os indivíduos precisam atravessar áreas abertas para se deslocarem entre fragmentos, ficando mais vulneráveis a diversos riscos.
A própria pesquisa identificou ameaças à fauna local. Durante as atividades de campo, a equipe encontrou armadilhas utilizadas por caçadores e perdeu uma das câmeras instaladas na mata, que provavelmente foi levada por terceiros.



A estudante Raquel da Silva Rocha, primeira bolsista do projeto, acompanhou parte desse trabalho ainda durante o curso técnico em Florestas do IF Baiano. Hoje, aos 20 anos, cursa Antropologia e Arqueologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e participa de projetos de extensão ligados à área ambiental. Ela considera a experiência decisiva para sua trajetória acadêmica. “A possibilidade de fazer uma IC (iniciação científica) foi a porta de entrada para que eu pudesse construir a confiança necessária para ir atrás do que eu gostaria de estudar”, relata.
Durante o projeto, Raquel participou da análise dos registros obtidos pelas câmeras e afirma ter se surpreendido com a quantidade de espécies encontradas.“Acho que ao final do projeto fiquei surpresa com a quantidade de animais encontrados. Foram quase 30 espécies diferentes. E, particularmente, o animal que mais me surpreendeu ter sido encontrado, ainda mais em um espaço de mata tão pequeno, foi o veado-mateiro”, conta.
Para ela, a presença desse mamífero de médio porte não indica apenas a importância do fragmento pesquisado, mas também evidencia a escassez de áreas naturais preservadas em toda a região. “Por conta da escassez de alimento e espaço seguro em toda a região em volta, ele não tem escolha a não ser se refugiar nesses espaços pequenos demais para eles”, avalia.
A estudante também destaca a relevância da iniciação científica oferecida pelos Institutos Federais. “Para qualquer pessoa que sonha em seguir carreira acadêmica ou se aprofundar no método científico, é uma oportunidade maravilhosa poder fazer uma iniciação científica logo no ensino médio”, afirma. A aluna Emanuelle também compartilha dessa percepção: “participar desse projeto foi uma experiência muito enriquecedora para mim, principalmente por ter um contato mais profundo com um trabalho como esse. Além do trabalho em campo, pude analisar os registros das câmeras e compreender melhor como funcionam esses levantamentos”.



Além de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade local, a pesquisa abriu caminho para novas investigações. Durante as atividades de campo, a equipe observou frequentemente a presença de primatas vocalizando, se alimentando e se deslocando entre as árvores. As observações motivaram a elaboração de um novo projeto voltado ao levantamento das espécies de primatas da região, à identificação dos grupos familiares e ao estudo de seus comportamentos, especialmente, da espécie Callithrix geoffroyi, o sagui-da-cara-branca.
Outro desdobramento previsto é a produção de materiais educativos sobre as espécies registradas, sua importância ecológica e os serviços ecossistêmicos que ajudam a manter. A proposta é que esses conteúdos sejam utilizados tanto no IF Baiano quanto em escolas públicas de Teixeira de Freitas.
Para Rosane, o projeto é um grande passo para pensar a conservação da área, pois qualquer iniciativa para definição de estratégias de manejo da fauna e flora locais passa, necessariamente, pela avaliação da quantidade e qualidade da informação disponível sobre essas espécies. Ou seja, conhecer a fauna é um passo fundamental para garantir sua conservação. “É importante que a área seja reconhecida como um refúgio para espécies de médio e grande porte para que a população entenda que essa mata faz parte das riquezas existentes em Teixeira de Freitas,” afirma a professora.


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