Servidora do IF Baiano reflete sobre o papel da Mulher

O papel de cuidadora, administradora das tarefas do lar, submissa e oprimida pela hierarquia masculina são características ainda sentidas na sociedade, em razão do patriarcado. Até o século XIX, a história das mulheres era relatada por homens. Em 1930, mulheres lutaram pelos direitos políticos, mas só a partir das décadas de 70 e 80, o movimento feministas e de mulheres entram em cena.

Ser mulher, no Brasil, é potencializar a luta contra o patriarcado, categoria fundante da opressão feminina, é não permitir que marcadores de diferença (racismo, sexismo, machismo, lesbofobia, geração, território, classismo) nos segregue”, disse Maria Asenate Franco, assistente social do IF Baiano – Campus Governador Mangabeira e doutoranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, na UFBA.

Nesta entrevista ao Blog Bem Baiano, Asenate comenta sobre o tema, em razão da data comemorativa do dia 8 de março. Ela desenvolve trabalho com mulheres trabalhadoras rurais desde 2013 e, atualmente, estuda sobre violência de gênero contra mulheres trabalhadoras rurais das cidades de Governador Mangabeira e Muritiba, na Bahia.

captura_asenateBem Baiano – Como considera esta data de 8 de março?

Maria Asenate – Considero como marco das lutas de mulheres não satisfeitas com a opressão masculina e seus direitos trabalhistas negados, de forma vilipendiosa.

Somos um país machista? Que fatores podem justificar esse posicionamento ainda hoje?

Não somente homens, mas mulheres precisam entender que não há mais espaço para atitudes baseadas no modelo patriarcal, bem como a censura ao corpo da mulher. Nós, mulheres, conquistamos, com muita luta, nosso lugar na sociedade. Somos maioria no ensino superior, como ressalta pesquisa oficial; assumimos cargos de chefia, ocupamos espaços laborais que homens ocupam e estamos cotidianamente, principalmente, mulheres de classes populares, assumindo a provisão familiar (famílias chefiadas por mulheres), estamos nos espaços privado e público nas atividades para sobrevivermos.

No Enem 2015, o tema da redação abordava a questão da violência contra mulher. Como a escola deveria trabalhar o assunto?

Penso que os espaços de educação formal devem sim, propor ações socioeducativas que extrapolem os muros escolares. Discutam “problemas sociais” que invadem a vida de estudantes. Vejo que a necessidade de desenvolver não somente projetos, mas rodas de conversas, mesa-redonda, fóruns dentre outros instrumentos que possam valorizar a educação informal, devem ser considerados. Infelizmente, o modelo de educação “bancária”, como dizia Paulo Freire, persiste na metodologia de docentes. Urge a necessidade de abordar temáticas que pensemos estar longe de nosso cotidiano, mas podem contribuir para evasão escolar e fatores que inviabilizam o processo ensino- aprendizagem favorável ao sucesso escolar de discentes. Tenho como uma das atividades a visita domiciliar, adentro espaço sociofamiliar e entendo da necessidade de olhar mais de perto estudantes, principalmente, na sua adolescência. Implementei dois projetos (pesquisa e extensão) entre os anos de 2013 a 2015. No total, cinco estudantes do sexo feminino participaram ativamente das ações, inclusive, apresentaram trabalhos acadêmicos, a exemplo da SBPC.

“Mulheres precisam entender que não há mais espaço para atitudes baseadas no modelo patriarcal, bem como a censura ao corpo da mulher” .

– Maria Asenate Franco-

Quanto ao desenvolvimento intelectual e inserção no mundo do trabalho, quais os desafios do mercado de trabalho para mulher? E no campo?

Desde que adentrei nas discussões de cunho feminista, vejo a mulher no enfrentamento aos obstáculos, principalmente, quando ocupa posições demarcada pelo viés machista. Pesquisas apontam que, embora mulheres seja donas de capital cultural, há situações em que encontra na mesma função que homens, mas seus salários são menores.

Quanto ao campo, tenho percebido que o patriarcado, em determinadas famílias, é quem determina a divisão sexual do trabalho, em outras, a mulher é figura matriarcal, tem voz ativa. No tocante às condições de trabalho, a roça, principal atividade laboral, nem sempre remunerada, às vezes, configura-se como “ajuda”. Os afazeres domésticos, majoritariamente destinado às mulheres. Existem questões de gênero definidas, pela religiosidade (catolicismo é dominante nas comunidades rurais, as quais realizo trabalho de pesquisa).

O que tem sido feito em termos de políticas públicas?

Avançamos muito desde 2003, com a Secretaria de Políticas para Mulheres e, principalmente com a Lei 11.340/2006, sancionada no governo Lula. Infelizmente, o retrocesso tem inviabilizado a materialização de ações que promovam melhoria na vida de nós mulheres, principalmente, na área de direitos humanos, a exemplo da Casa da Mulher Brasileira e continuidade de políticas públicas capazes de protagonizar a mulher, sujeito político, com possibilidades de construir sua história de vida e (re)conhecer-se como mulher imersa na sociedade com resquícios patriarcais e que, consequentemente, obsta conquistas, como direito à educação e ao mundo do trabalho decente, no momento em que esferas governamentais descumprem legislações na área social, a saber, construções de creches e escolas em tempos integrais.

Espaços de educação formal devem sim, propor ações socioeducativas que extrapolem os muros escolares. Discutam ‘problemas sociais’ que invadem a vida de estudantes”.

– Maria Asenate Franco-

Como você avalia o movimento feminista? Quais os avanços e o que pode melhorar?

Nos anos 1970/80, o movimentos feministas e de mulheres entram em cena, muito embora, anos anteriores, mulheres já lutavam por direitos e visibilidade, a exemplo de Berta Lutz, o direito político (voto feminino) em meados dos anos 1930. Embora, no cenário, tivéssemos os movimentos feministas de mulheres, as agendas divergiam. Feministas reivindicavam direito para ingressar no mundo do trabalho, enquanto as mulheres, nas suas pautas de lutas, almejavam políticas públicas para diminuir a sobrecarga de trabalho doméstico, a exemplo de creches. O espaço público era seu “velho” conhecido; trabalhavam como domésticas e babás dessas mulheres feministas, sobrando-lhes tempo, para lutarem pelo que suas empregadas, conquistaram compulsoriamente. Registro aqui as lutas das mulheres negras na emergência desse movimentos, à qual me incluo, ao sentirem-se prejudicadas, haja vista suas reivindicações no tocante à raça e classe, foi negligenciado pelas feministas brancas.

E sobre as mulheres negras? O que gostaria de destacar?

Sabemos que os movimentos feministas possuem diversidades quanto aos debates políticos. Entretanto, há questões como, o racismo. Aqui, em Salvador, temos o Julho das Pretas que abarca mulheres de coletivos diversos. Vejo essa potencialização na luta contra o racismo relevante para nós mulheres que almejamos por sociedade sem preconceito de cor. Destaco nessa reflexão, a mulher negra da era colonial; as mazelas a que seu povo negro foi submetido, condições subumanas. O estupro colonial “responsável” pela miscigenação e a falácia da “democracia racial brasileira”, em função do espectro cromático a partir da descendência originada dessa violência sexual contra mulheres negras e índias. Não podemos esquecer, a história de nós mulheres perpassa por esse passado tão presente na vida de mulheres afrodescendentes. Como bem diz o ditado “preta para trabalhar, branca para casar e mulata para fornicar”.

Poderia comentar a frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher” de Simone de Beauvoir?

Penso que binarismo, assim como o determinismo biológico, são responsáveis pelo destino da mulher em ser hétero, assumir a maternidade como destino, ao invés de viver sua sexualidade, distante dos padrões heteronormativo.

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