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Pesquisadora do IF Baiano fala sobre Consciência Negra

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O 20 de novembro foi instituído como dia da Consciência Negra através da lei 12.519/2011. Na década de 70, o Movimento Negro Unificado, motivado pela história e morte de Zumbi, o elegeu como símbolo da luta e resistências dos negros no Brasil.

Falando sobre a temática, a pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) no Instituto Federal Baiano (IF Baiano), a professora Izanete Souza abordou sobre a presença do negro na sociedade, além dos conceitos de raça, negro e negritude. Para ela, a ideia de país miscigenado camufla o preconceito racial no Brasil. Confira na entrevista concedida a equipe Bem Baiano.

Bem Baiano – O que é ser negro? O que é negritude?

Izanete Souza – Os conceitos de negro e negritude estão atrelados a uma concepção cultural. Desta forma, a concepção de negro perpassa pelo autorreconhecimento em primeira instância, independente da cor epidérmica (consequência dos casamentos inter-raciais). O conceito de negritude corresponde a uma ideologia de valorização da cultura negra em países africanos ou com populações afrodescendentes expressivas que foram vítimas da opressão colonialista, como é o caso do Brasil.

E sobre a concepção de raça?

A concepção de raça consiste em um conceito político e não biológico como o que foi usado, desde o colonialismo europeu como uma estratégia de dominação. Ao contrário do conceito biológico, enquanto membros do NEABI adotamos a definição que coaduna com o que desde a década de 1990, no Brasil está sendo usado: como estratégia política de promoção de uma igualdade racial que implica uma igualdade de direitos e deveres políticos e sociais. Desse modo, entendo que a ideia de “raça” é uma construção cultural atrelada aos princípios individuais e coletivos tanto do presente quanto da ancestralidade do negro.

Considera importante a data comemorativa do 20 de novembro – Consciência Negra?

Hoje, todo o mês de novembro é dedicado à construção da consciência de que o negro é apenas mais uma das diversas etnias existentes no mundo e que assim como os demais povos jamais deverá ser escravizado, nem submetido à práticas de racismo, nem de injúria racial ou a qualquer outro tipo de preconceito. Portanto, nós, educadores, precisamos empreender esforços conjuntamente para ampliar o debate e as práticas acerca do combate ao racismo durante o ano inteiro, contudo, devemos intensificar este debate no mês de novembro como uma das formas de divulgarmos a nossa resistência a qualquer tipo de preconceito étnico ou de racismo.

Somos um país miscigenado e altamente preconceituoso, especialmente nas questões étnicas? O que explica esse comportamento do brasileiro?

Não somos um país miscigenado. Somos um país composto de diversidades étnicas que sobrevivem mesmo nos dias atuais. A visão de um Brasil miscigenado nos remete a uma falsa ideia de que houve uma mistura racial/cultural que transformou-se em uma única cultura e isso não é verdade. As práticas preconceituosas ainda são uma infeliz realidade no nosso país que sob a máscara da construção miscigenada da nação brasileira tenta camuflar este preconceito racial. Contudo, ele é evidente nas falas e piadas dirigidas aos negros e aos índios e nas condições socioeconômicas possibilitadas à massa populacional brasileira, hoje constituída por negros ou descendentes negros. Este comportamento preconceituoso explica-se à maciça divulgação da cultura europeizada tanto nas escolas quanto nos meios midiáticos como uma cultura privilegiada, o que não deve ser tomado como verdade.

“As culturas negras estão aí, vivas e belas…”

– Izanete Souza, pesquisadora e professora do IF Baiano –

As culturas negras estão aí, vivas e belas, da mesma forma que as culturas indígenas, italianas, espanholas,cigana, japonesas e tantas outras que precisam ser respeitadas. No entanto, é preciso dar uma atenção especial aos índios – primeiros habitantes do Brasil – e aos negros que são os que verdadeiramente construíram e constroem este país dia a dia com a sua força de trabalho que, até 1888, foi oficialmente escravizada e que, infelizmente, continua sendo escravizada através da negação social ao direito à educação, saúde e moradia de qualidade.

Por que as ações afirmativas são relevantes no processo de maior participação do negro nos espaços de decisão do país?

As ações afirmativas são importantes porque contribuem para a elevação da autoestima daqueles que representam a minoria no poder. Na mesma direção, o papel do trabalho educativo no tocante à diversidade étnico-racial é possibilitar ao estudante a vivência de uma educação inter crítica, que lhe oportunize a visualização do que está a travar o seu progresso e dos seus iguais, que lhe dê condição de intervir e mudar a realidade que o cerca.

As ações afirmativas representam um caminho para a vivência com dignidade não só nos aspectos de personalidade, mas também socioeconômicos, o que não significa limitar a vivência dos negros aos espaços urbanos e recheados de tecnologia moderna. Também podemos viver bem em espaços não urbanos que nos remetem a uma qualidade de vida ainda melhor, através do contato direto com a natureza, com o ar puro, com a preferência e uso de remédios naturais em detrimento de remédios industrializados, excetuando-se aqueles que se fazem estritamente necessários para a cura de algumas moléstias. Enfim, as ações afirmativas servem para reforçar a diversidade cultural do nosso e de outros países bem como para proporcionar a nós, orgulho dessa diversidade dentro da igualdade de direitos.

Ao lado da família e das religiões, a mídia exerce um papel importante na educação do povo. Percebe-se menos preconceito quando o tema é mais debatido na TV e na rádio, por exemplo, ou não diminui?

A inserção de ações de combate ao racismo em produtos de entretenimento e nos meios midiáticos podem contribuir sim para a educação pautada na igualdade dos direitos e, portanto, das relações étnicas e sociais. Contudo, é preciso observar que algumas emissoras de TV, sob o pretexto de combater o preconceito só o reforçam. A eleição de Raíssa Santana como Miss Brasil 2016, representa um passo a mais na valorização da beleza negra, em especial da mulher, porém, representa também um alerta para que a mídia não volte a disseminar a ideia cruel de “mulata” – aquela que apresenta apenas a beleza física desprovida de inteligência e que deve estar a disposição de quem a quiser usar. Precisamos valorizar a beleza negra na sua simplicidade também, na sua essência diária.

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